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Adeus Jornal Correio de Uberlândia

“O que se abre em 2017 é um
enorme vazio em nossa história”

Nos últimos meses tentei me convencer que faça sentido uma cidade sem jornal. Digeri todas as alegações dos mais moderninhos com suas previsões de um futuro sem papel. Mas, trafegando pelas ruas do passado, e confirmando uma história esplêndida impressa nas páginas do jornal Correio de Uberlândia, vejo que não há nada que me convença. Não há lógica nessa ausência. Por mais que existam argumentos convincentes para o grupo empresarial não mantê-lo mais, o que se abre em 2017 é um enorme vazio em nossa história. Um hiato que talvez nem seja preenchido em curto ou médio prazo.

Jornalismo, para mim, foi quase uma obra do acaso. O jornal Correio não. Em um dos meus retornos à cidade, não tendo algo pra fazer, resolvi ingressar no curso superior de Jornalismo, que acabara de ser implantado em Uberlândia. Devo ter sido da terceira ou quarta turma. Uma vez lá, os meus melhores professores não eram jornalistas. Eram historiadores. Um deles, a professora Regma Maria dos Santos, sempre caligrafava em meus testes: “publique-se”. Divertia com isso, pois achava que aquilo era um mero passatempo. Até que ela me ligou um dia, dizendo que havia um estágio no Festival de Dança do Triângulo, com um conceituado jornalista e crítico de arte de Belo Horizonte. E, compulsoriamente, eu estava inscrito como estagiário. Deveria começar na manhã do dia seguinte. Respeitosamente, obedeci. Do festival, saltei para outros projetos jornalísticos da Secretaria de Cultura, do Carnaval e do Arquivo Público e deles já absorvido pela Redação do Correio, por meio de seu diretor na época, Almerindo Camilo. De repórter geral, quando aprendi muito com jornalistas experientes como Izabel Bacellar, Ivone Santana, entre outros, saltei rapidamente, por questões de afinidades hoje bastante compreensíveis para todo mundo, para repórter de Cultura. Ali, nesse canto mais ilustrado da atividade, novos aprendizados com outros profissionais de expressão, como Maurício Ricardo Quirino, Ana dos Guaranys e Renata Neiva, até efetivamente me tornar o editor da área.

Conto um pouco da minha trajetória como uma das centenas de recortes que essa história abriga. Todos que passaram por ali carregam as suas. O fato é que, mesmo saindo e retornando várias vezes, não há como desvencilhar a trajetória pessoal da história maior que o jornal representa. Ledo engano eu pensar que estar ali era obra do acaso. O exercício da profissão me acendeu a memória e mostrou que o jornalismo não era um acidente na minha vida. Me fez lembrar, por exemplo, que ainda no curso primário, criávamos jornaizinhos e imprimíamos no extinto mimeógrafo. Dá até pra sentir o cheiro do álcool que a impressora exalava ou, em épocas de maior requinte, da tinta, nos mimeógrafos mais modernos. Me trouxe de volta também a lembrança de quando participava do movimento estudantil secundarista e, em campanha pela Uesu, entidade representativa dos estudantes, conseguimos produzir um tabloide, impresso em outro jornal existente na época, O Triângulo, e pagamos a impressão com o meu trabalho, redigindo e montando as chapas de tipos para a máquina que rodava o jornal. Falando assim, pode até parecer que tenho 200 anos. Mas, por incrível que pareça, isso foi há poucas décadas. E o jornal Correio de Uberlândia, graças ao empreendedorismo do seu grupo mantenedor, sempre acompanhou essa evolução. Minha história com o Correio não chega nem perto das que outras pessoas carregam. Pessoas que passaram todo o tempo ali, algumas atingindo décadas a fio. Se tenho tantas boas lembranças, há os que carregam uma tonelada a mais. Se para mim ele é tão importante, o que dirá das pessoas que fizeram daquela redação o seu modo de vida? Difícil mesmo é imaginar que essa história tenha um fim.

Um legado bacana que o jornal nos deixou foi o cuidado de ter as suas publicações armazenadas no Arquivo Público Municipal e disponibilizada ali para quaisquer curiosos ou pesquisadores. São poucas as cidades que têm esse privilégio, de ter quase oito décadas de história sistematizadas e disponíveis para pesquisa. Um luxo isso. Fico feliz em saber que poderei matar a saudade das leituras diárias com um simples passeio ao Arquivo Público, para visitar o passado e lembrar dos tempos em que a cidade transitava também por suas páginas e entrava na residência de boa parte da população. Não. O jornal Correio de Uberlândia não está morto. Pode não estar registrando mais o presente. Mas, das milhares de páginas acumuladas durante todo esse tempo, ainda salta a vida da informação. Há a energia de muitos que se dedicaram a construí-lo e até mesmo daqueles que já encerraram a vida, essa a parte triste de todas as histórias, dos que somem do planeta deixando, além da saudade, a lembrança impressa.

Por: Carlos Guimarães Coelho | Jornalista
Postado por: Filipe Medeiros | Assessor de conteúdo da Revista Cult

Foto: Shutterstock
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