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Fim do livre mercado e a exuberância irracional

A conjuntura mundial está
tomada pela imprevisibilidade

Quem acompanha os noticiários internacionais tem a sensação de que o período em que vivemos será estudado pelos historiadores do futuro. Não se sabe ainda, mas já se especulam, quais as implicações futuras das decisões chanceladas pelo voto nas democracias desenvolvidas e, as perspectivas não são boas. Me refiro especificamente a vários movimentos acontecendo simultaneamente na Europa e Estados Unidos que colocam em risco instituições erguidas nos anos 1970 e 1980 que criaram um enorme ciclo de inovações tecnológicas, prosperidade e bem-estar, jamais vista na história mundial. É natural que exista uma defasagem temporal entre mudanças de paradigmas mundiais, que são influenciados primeiramente pela insurgência no mundo das ideias e, em seguida, a refletem nas ações políticas. Aparentemente, o momento em que as ideias se tornaram influentes passou enquanto acadêmicos e os burocratas dos países desenvolvidos se ocupavam salvando o ocidente dos impactos do sub prime, enquanto isso, se consolidava no mundo do pensamento o ideário anticapitalista e desglobalizante, além do ressurgimento de teses nacionalistas, protecionistas, isolacionistas que, achávamos, já vencidas tanto no campo das ideias, quanto no campo da ação.

A ressurreição destas teses se deu principalmente com os impactos da crise de 2008, onde a disputa pela narrativa ganhou impulso, deslocando o eleitor mediano dos países desenvolvidos das preferências de centro, para as extremas. Isto ficou claro a partir da eleição da extrema esquerda com Aléxis Tsíripas, que por pouco não redundou na saída da pequena Grécia da União Europeia, causando um enorme pânico quanto ao futuro do Bloco e do Euro. Não são fatos isolados, vimos um movimento similar no Brexit, e agora na eleição americana onde, diferentemente da Grécia, quem venceu foi a direita populista e não a esquerda.

Quem são os Populistas?
Populistas, independentemente de sua orientação ideológica de direita ou de esquerda, ou da sua localização geográfica, possuem mais semelhanças do que diferenças (pautadas predominantemente pelo excessivo teor moral de suas pautas, como aborto, porte de armas, imigração, etc), entre as semelhanças, tem-se um ideário político e econômico pautado em três premissas:
- Desprezo seletivo à democracia: principalmente do ponto de vista retórico, apelam ao culto ao Líder, somado ataques à liberdade de imprensa, à instituições de Estado como judiciário e legislativo, e intolerância quanto ao contraditório e à oposição. Isto evidentemente acirra os ânimos nacionais, produzindo um excessivo ambiente de radicalidade do público.
- Expansionismo fiscal: partindo exclusivamente da premissa que o baixo crescimento econômico e o desemprego são culpa do livre mercado e, portanto, o incentivo ao crescimento deverá vir com o aumento do controle do governo sobre atividades “estratégicas” e com a expansão de investimentos públicos. Evidentemente que esta estratégia envolve um custo elevado sobre a dívida pública e alta da taxa de juros, cujos impactos sobre o crescimento econômico são questionáveis.
- Restrição ao comércio global: por este raciocínio, a culpa pelo desemprego e pela estagnação doméstica, é do comércio, que beneficia “ricos” em prejuízo de “pobres”, gera empregos em outros países em prejuízo da economia nacional e, portanto, é preciso romper com o comércio internacional, protegendo a produção doméstica e reservando mercado para voltar a prosperar internamente. Seria ótima ideia, não fosse pelo impacto negativo destas teses sobre a produtividade local, produzindo, portanto, um efeito oposto sobre o crescimento, o emprego e os preços.

Qual o risco da ameaça populista para o mundo?
Levando em conta estas três características próprias de regimes populistas, há pouca diferença entre as crenças, por exemplo, de Hugo Chávez e Donald Trump. Com um agravante, não se trata mais de um fenômeno restrito a países da América do Sul ou à Grécia, este é um processo que se amplificou pelo mundo e tornou-se uma escolha social viável das democracias ocidentais, chanceladas no Brexit, pela eleição de Trump, e pelo avanço da extrema direita e esquerda em vários países europeus, questionando o modelo econômico que gerou 40 anos de prosperidade no mundo. As instituições soerguidas nos governos Thatcher e Reagan foram responsáveis pelo amplo crescimento econômico no hemisfério norte, pelo desenvolvimento de nações no sudeste asiático, do oriente médio e pela estabilização das hiperinflações na América do Sul. Ficaram de fora desta onda de prosperidade países de tendências isolacionistas e estatizantes, como a Rússia. Agora, é para direção contrária ao modelo liberal de Thatcher e Reagan que as democracias ocidentais estão conduzindo e as implicações disto são preocupantes. Primeiro por se tratar de um movimento generalizado nos países desenvolvidos, o que significa que, uma possível política isolacionista, por exemplo, americana, geraria uma inevitável resposta protecionista na Europa ou Ásia, o que desabaria o já capenga comércio internacional e, com isto, as taxas de crescimento global. Segundo, esta extensão da crise econômica, patrocinada pela aventura protecionista, pode significar um risco para as democracias ocidentais, uma vez que há constatação empírica de que o mal- estar econômico, influencia o comportamento do eleitor, e dão musculatura a movimentos políticos de extremos. Estas experiências redundaram em ditaduras e guerras no passado.

E os impactos para o Brasil?
Os impactos destes movimentos para a América Latina de forma geral e, para o Brasil de forma específica são indiretos, porém não menos graves. Isto porque nestes países as exportações são um importante elemento de demanda e, dado que são predominantemente exportadores de commodities, dependem da expansão do comércio global para fomentar seu crescimento, seja pela evolução dos preços, seja pela expansão dos quantum. Um período protecionista, portanto, reduziria muito o potencial de crescimento dos países do Mercosul e do Brasil. Um segundo fator de prejuízo do populismo expresso na eleição de Trump para a economia global e, para a economia brasileira, está nos movimentos prováveis da taxa de juros americana. É sabido que os líderes do Partido Republicano são críticos da política de quantitative easing do presidente Barack Obama, isto significa que o FED tende a antecipar a elevação da taxa de juros e, inaugurando com isto, um movimento de canalização de capitais que financiam déficits em Balanços de Pagamentos do resto do mundo para os EUA. Este movimento deve significar uma elevação das taxas de juros em todo o mundo. O principal problema será para países, como o Brasil, com taxas de juros já elevadas para parâmetros internacionais, o que deve causar dois impactos macro mais relevantes: primeiro, retardar o processo de queda da taxa de juros da economia brasileira, fundamental para reaquecer o mercado de trabalho e o crescimento e, segundo, súbito processo de desvalorização continuada da taxa de câmbio, provocando um choque de custos nas firmas brasileiras, elevando assim a inflação. Isto significa que, caso Donald Trump cumpra o que prometeu, a já comprometida recuperação da economia brasileira, pela morosidade no apetite de reformas necessárias pelo Governo Temer, estará ainda mais comprometida. Em resumo, a conjuntura mundial está tomada pela imprevisibilidade e, a princípio, os impactos disso para a economia brasileira, que precisa urgentemente do crescimento, tendem a ser muito ruins.

Por: Benito Salomão | Economista
Postado por: Filipe Medeiros | Assessor de conteúdo da Revista Cult

Foto: Divulgação
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