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O gigante que nunca adormeceu

Com centenário celebrado em 2015, Grande
Otelo pode ter em 2017 o marco dos 100 anos

Toda celebridade que se preze deve conter controvérsias em sua biografia. Com o pequeno Grande Otelo não poderia ser diferente. Desde a origem de seu apelido e a grafia correta do Otelo (com ou sem h), passando pela relação de afeto ou total ausência dela com sua cidade natal até o verdadeiro ano de seu nascimento, inventado por ele, segundo alguns, o que jogaria a data de seu centenário para agora e não há dois anos, como pensava a maioria. Não importa. São dúvidas que, na verdade, jogam luz sobre sua trajetória. Grande Otelo, falecido há 24 anos, foi um artista ímpar, de grandeza imensurável, ao lado de figuras emblemáticas como Carmem Miranda, a representação máxima da cultura brasileira em todo o mundo. No caso, portanto, o maior patrimônio cultural de nossa Uberlândia. Embora muitos não saibam, o eterno Macunaíma nasceu em nossa cidade e está aqui enterrado. Controvérsias à parte, a cidade continua tendo com ele uma dívida histórica, de gratidão ao seu nome e de respeito a sua relevância artística.

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Para o jornalista Sérgio Cabral, biógrafo de Grande Otelo, o artista nunca guardou ressentimento para com a cidade. Ao contrário, ele relata que, entre os manuscritos encontrados em seu acervo, há vários textos poéticos com alusão carinhosa a Uberlândia. Segundo Cabral, a Uberabinha sempre esteve na memória afetiva de Grande Otelo. E, até onde ele pode perceber, sem nenhum rancor. O fato é que o menino nascido Sebastião, de poucos anos vividos na pequena cidade de Uberabinha, tinha consigo a predestinação ao sucesso. Embora em várias entrevistas refira a isso como um golpe de sorte, consequência da “necessidade de sobreviver na selva urbana”, possuía extrema inteligência e sensibilidade. Isso era visível não apenas em sua verve criativa, comprovada nas tiradas de humor improvisado em cada show e nas composições de grande qualidade. Autodidata, já que o seu nível de escolaridade ficou comprometido graças às constantes fugas das escolas de São Paulo, ele era poliglota, Grande Otelo dominava fluentemente quatro idiomas, segundo um de seus filhos, Mário Luiz de Souza Prata, e também tinha um português bem acima da média. Mesmo a biografia de Grande Otelo apontando 1917 como o possível ano de seu nascimento, estabeleceu-se como oficial a data considerada pelo próprio ao longo de sua vida, ainda que tenha sido inventada por ele, para antecipar a maioridade e ter acesso imediato ao trabalho no famoso Cassino da Urca, no Rio de Janeiro. 1915 ou 1917, o marco dos 100 anos teve poucas ou quase nenhuma celebração em Uberlândia, sua terra natal. Há 12 anos, quando foram celebrados os 90 anos do artista, a cidade, por intermédio do autor dessas linhas, recebeu o glamuroso espetáculo musical “Eta Moleque Bamba”, produção montada no Rio Janeiro e apresentada também aqui, no Teatro Rondon Pacheco, rapidamente com lotações esgotadas. No pacote das celebrações formado no Rio estavam ainda a biografia de Sérgio Cabral, um site sobre o artista e a organização do seu acervo de documentos, objetos pessoais e trabalhos realizados em parceria com a Funarte e Prefeitura do Rio. Parte desse projeto se consolidaria depois, até 2015, ano do suposto centenário. Segundo Mário Prata, algumas ações pelos Cem Anos foram delineadas através da Caixa Econômica, para o eixo Rio/São Paulo (exposições com mostra de filmes) e do acervo recuperado pela Petrobras, que terá a participação da Fundação Roberto Marinho no novo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

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Aqui em Uberlândia, a Secretaria Municipal de Cultura anunciou várias ações planejadas ao longo de 2015. A maior parte delas não aconteceu, pois dependia de captação de recursos das leis de incentivo à Cultura. De todas as ações previstas foi lançado apenas o calendário comemorativo ao centenário de 2015. Por meio de edital, artistas visuais e escritores inscreveram seus trabalhos e os selecionados foram impressos no calendário de mesa distribuído pela Secretaria de Cultura. Além de shows, palestras, debates e espetáculos homenageando o artista que não aconteceram, o projeto previa também a instalação de uma estátua em tamanho natural em uma das praças da cidade, provavelmente a Praça Adolfo Fonseca, que foi cenário da maior parte da infância de Grande Otelo, uma vez que ali ficava o Grande Hotel, onde o garoto engraxava sapatos e realizava suas estripulias artísticas para o deleite dos hóspedes, até partir com alguns deles para São Paulo e dar início àquela que seria uma das mais fascinantes trajetórias artísticas do Brasil. E foi uma carreira pontuada por muito trabalho. Grande Otelo participou de 117 filmes entre 1935 e 1997, de 47 espetáculos e shows entre o início da década de 1920 e 1990, e de 40 discos entre 1930 e 1988. A carreira foi iniciada por aqui, quando o moleque bamba, de muitos apelidos como Tião, Tiãozinho e Tiziu, já demonstrava nas ruas o seu talento para as artes cênicas. Tiziu era o seu apelido preferido. É o nome do pássaro negro muito comum em nosso continente. Como ninguém ele sobrevoou vários territórios. E conquistou o mundo. Ironicamente, foi após atravessar continentes, ao descer de um avião, em 26 de novembro de 1993, pisando em solo francês rumo ao Festival de Cinema de Nantes, onde seria o grande homenageado, que Grande Otelo partiu para sempre.

ORGULHO DA RAÇA APENAS COM MILITÂNCIA ARTÍSTICA
O ator e compositor Grande Otelo tornou-se um dos expoentes da cultura negra brasileira sem levantar bandeiras do Movimento Negro. Chegou a ser criticado por isso. Segundo Sérgio Cabral, Grande Otelo levou muitos anos para compreender que também era vítima do racismo. Quando amigos envolvidos nas lutas dos negros cobravam-lhe posições mais firmes na luta contra o preconceito racial, ele simplesmente argumentava que o seu primeiro alimento foi o leite de uma mulher branca. A sua mãe de leite foi a matriarca da família Freitas, Augusta Maria de Freitas, em cuja residência a mãe de Grande Otelo, Maria Abadia, era cozinheira. Aqui em Uberlândia, na escola primária, a Escola Bueno Brandão, Grande Otelo se sentia acanhado, como ele próprio declarou, por ser o único aluno negro da sala de aula. Há indícios históricos, comprovados em publicações da imprensa local, de que o racismo, bem acirrado no Brasil daqueles tempos, era muito mais acentuado na pequena Uberabinha e há quem diga que ele perdurou até os anos de 1960, talvez essa uma das razões do pouco contato da cidade com o seu filho mais ilustre. É curioso que Grande Otelo, em início de carreira, não tenha se sentido discriminado por causa de sua cor. O biógrafo Sérgio Cabral menciona momentos em que ele, nas primeiras turnês pelo país, tinha de tomar suas refeições no quarto, pois negros não eram permitidos à mesa. Contudo, a militância de Otelo em combate ao racismo seria mesmo via produção artística. No final da década de 1930 ele viria a integrar a Companhia Negra de Operetas, cuja estreia seria com o espetáculo Algemas Quebradas. A partir daí muitas de suas personagens nos palcos e nas telas seriam ações afirmativas em favor dos negros. E quebraria barreiras, como levar tais elencos a redutos da elite, como o Copacabana Palace, em cujo palco, até então, não era permitida a presença de negros. Já no auge da carreira, na década de 1950, Grande Otelo tenta formas organizadas de combater o racismo e chega a ter uma investida política, lançando sua candidatura a vereador em 1958, com o slogan de campanha “não vote em branco, vote em Grande Otelo”. Mas ninguém conhecia Sebastião Bernardes de Souza Prata, o nome que constava no Tribunal Regional Eleitoral, e nem sabia que esse era o nome de Grande Otelo.

Por: Carlos Guimarães Coelho | Jornalista e Produtor Cultural
Postado por: Filipe Medeiros | Assessor de Conteúdo Multimídia da CULT

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