Bem CultQualidade de vida

Sendo passageiro

Não temos tempo para ter
tempo, acho que nem queremos.

Quando éramos crianças passeando de carro, geralmente sentadas no banco de trás, ficávamos observando a paisagem, os desenhos das fachadas, o movimento das nuvens no céu, não buscávamos a ciência do trajeto ou trânsito, íamos passivamente ao sabor de quem nos conduzisse. Já adultos, como adultos nos comportamos, ativamente. Ainda que estejamos no banco de trás, não baixamos a guarda. Seja na atenção prestada aos outros, como na condução parcial do veículo quase agressiva pelos desafios do trajeto do trânsito ou pela decisão ou indecisão dos outros condutores. Raramente apreciamos a paisagem, quase nunca percebemos o movimento das nuvens, até que o semáforo acende a luz vermelha e resolvemos olhar para baixo, ou melhor, para dentro dos relacionamentos virtuais. Quanto mais adultos nos tornamos, mais nos fechamos para o que se vê através dos vidros, que quanto mais escuros, melhor! A premissa de se não deixar ver é intimamente ligada em deixar de ver. Gostamos de ver as “selfies” retocadas, imagens perfeitas de paisagens igualmente retocadas com frases feitas por algum outro adulto. Os veículos que utilizamos são os de comunicação, virtuais ou não, que geralmente são conduzidos por nós, mas que não dão direito a paisagens, nuvens ou ventos. Quanto maiores, mais nos aprisionamos em compromissos, da vida, de qualquer coisa que pareça uma desculpa inteligente para alguém. Não temos tempo para ter tempo, acho que nem queremos. Provavelmente não saberíamos o que fazer. Tempo e tecnologia são duas variáveis que não se justificam na vida real, ainda que uma tenha sido criada para que a outra fosse otimizada, sempre que temos tempo, nunca temos, pois não aproveitamos. Então sempre ficamos no déficit por vivermos em um mundo em que não olhamos e nem vivemos, ainda que seja pela janela. Algumas coisas não mudarão nunca assim como as nuvens suas formas e seu trajeto, coisas das quais não enjoamos.

A verdadeira mudança acontece quando escolhemos agir e sentir de forma virtual, absorvendo tudo ao nosso derredor como imagens retocadas com filtros. Estamos longe de poder falar de preservação ou sustentabilidade, pois supostamente deveríamos “viver” no mundo real, que é o que habitamos, mas vivemos, sentimos e agimos virtualmente, então essas não seriam ações consequentes. Deveríamos andar no banco de trás em algum momento do dia. Ainda que fosse uma vez por semana. Poderíamos observar tudo o que não temos visto e nos permitir sentir saudades daquilo que não conseguimos ver. Faríamos dessa atividade um compromisso. Diríamos que é tão necessário quanto os litros de água diários ou as dietas prescritas. Poderíamos dizer que precisamos de 20 minutos de paisagem por semana, para nos manter saudável, para nos manter humanos. Poderíamos, poderíamos, mas não faremos. Porque ações desse tipo são tomadas depois de infartos, acidentes, perdas pessoais, falência. Nunca nos sentimos tão humanos quanto quando estamos no fundo do poço, sem saída, confrontados com a morte, o fim. Me pergunto porque nossa natureza necessita ficar no limite para valorizar o próximo e a nós mesmos. Não falo do amor, falo daquela chacoalhada que nos acorda para a vida. Essa vida que tem como base o amanhecer e anoitecer. Que nos caracteriza como mamíferos que necessitam comer beber e dormir de preferência em duplas ou bandos o que nos mantém vivos. Independente de cores e formas, no dia da nossa calamidade não precisamos estar sós! É salutar um abraço, a sensação de se ter alguém ao nosso lado que se importe. Voltando a passividade de ser criança, deveríamos nos deixar levar pela perfeição da vida que são pessoas ajudando pessoas, “old style” olho no olho, lado a lado. Sensação estranha, né?! Mas uma experiência maravilhosa!

Por: Cássia Freitas | Psicóloga

Foto/Divulgação
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Filipe Medeiros

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Filipe Medeiros é coordenador de conteúdo da Revista Cult.

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