Variedades

Voarão como águias

“Pode ser que ele tenha se separado de você por um
tempo, afim de que você o recupere por toda a eternidade”

Há algum tempo, ouvi histórias a respeito das águias. Quando construíam seus ninhos, bem alto nas escarpas dos penhascos, colocavam espinhos, que seriam sentidos por seus rebentos na medida em que crescessem. A altura também era proposital, pois ao se sentirem incomodados pelos espinhos e estimulados pela mãe a sair do ninho, os filhotes ou voariam ou morreriam. Parece cruel, mas não é. No reino animal, os filhotes têm um tempo para ficar com a mãe e nesse ínterim aprenderem tudo o que é necessário para que sobrevivam enquanto adultos e esse tempo tem começo e fim. No nosso “reino”, além de gerarmos os filhotes mais frágeis, tendemos a protegê-los em excesso, a sofrer com a soltura das amarras, a pensar que os filhos são nossos, valorizando mais o “nosso” (nós) do que o “filho” (ele).

Na língua latina, a construção “multi filii agricolae sunt” significa literalmente que muitos filhos existem para o camponês, mas isso não significa que o camponês tem a posse de muitos filhos, mas que filhos existem à disposição, em “benefício” ou “prejuízo” do camponês”. Portanto, não se dizia que uma mulher teve filhos, e sim que filhos lhe foram dados. Se concordarmos com essa citação, talvez possamos nos sentir menos pressionados para aproveitar quando um filho alça seu primeiro grande voo, afinal se ele nos foi dado, significa que quem nos deu tem alguma responsabilidade e assim sendo, dividimos as cargas.

Tenho convicção de que filhos vêm de Deus e de que agora, enquanto adulto, frequentará ambientes onde não será conhecido como “meu” filho, mas como ele mesmo, como quem ele escolheu ser, mediante tudo o que lhe foi ensinado. E como mãe não me abstenho em dizer a exemplo de Paulo “pode ser que ele tenha se separado de você por um tempo, afim de que você o recupere por toda a eternidade”, ou seja, ele sempre será filho, mas por ser um bom filho será um adulto excepcional. Um bom homem, uma mulher incrível. E sabe qual será a minha participação nisso tudo? Eu serei aquela para quem foram dados os filhos, a presenteada, ou melhor, a abençoada.

Crédito
Cássia de Figueiredo Freitas,
trecho retirado Latina essentia, pg 48.

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Cassia Freitas

Cassia Freitas

Cássia de Figueiredo Freitas é filha, esposa, mãe e irmã, presbiteriana, escritora graduada em Design pela UFU com extensão em Psicologia da Percepção e Comportamental. Com estudos nas áreas de lingüística e comunicação visual, desenvolve trabalhos voluntários nas áreas de comunicação, reintegração social e ensino. Participa do Gelativm, grupo de estudos lativm da Universidade Federal de Uberlândia.